O MODELO
A Diamond T Motor Car Company foi fundada em 1905 por Charles Arthur Tilt em Chicago, Illinois. Consolidada inicialmente no segmento de automóveis de alto padrão, a empresa direcionou-se progressivamente para a produção de caminhões comerciais, tornando-se uma das mais respeitadas fabricantes de veículos pesados dos Estados Unidos. Com a entrada americana na Segunda Guerra Mundial, toda a sua capacidade produtiva foi mobilizada para o esforço de guerra.
Em 1940, o Exército dos Estados Unidos encomendou à Diamond T o desenvolvimento de um caminhão tático pesado com tração integral 6×6 e capacidade de quatro toneladas. O resultado foi a família G-509, produzida em Chicago entre 1940 e 1945 em mais de 30.000 unidades nas versões carga, guincho, transporte de pontões e basculante. O motor adotado em toda a família foi o Hercules RXC, um seis cilindros em linha a gasolina de 8,7 litros e 106 cv, associado a câmbio manual de cinco velocidades e caixa de transferência de dois estágios com acionamento do eixo dianteiro. Os eixos motrizes eram fornecidos pela Timken, fabricante americano de referência em componentes de transmissão para uso militar.
A versão de recuperação recebeu a designação Model 969-A e foi equipada com a carroceria de recuperação Holmes W-45 de duplo boom, produzida pela Ernest Holmes Company em Chattanooga, Tennessee. A estrutura contava com dois braços rotativos independentes, cada um com cabo de içamento e capacidade individual de cinco toneladas, operáveis de forma combinada para içamentos de até dez toneladas. Pernas estabilizadoras retráteis em ambos os lados conferiam estabilidade às operações de recuperação. O veículo transportava ainda compressor de ar autônomo, cilindros de solda, cabos, roldanas, correntes e barras de reboque, além de um guincho frontal Gar Wood de 6.800 kg com 91 metros de cabo. A missão primária do 969-A era a recuperação de viaturas blindadas e peças de artilharia pesada em condições de campanha.
A partir de junho de 1943, a cabine fechada de origem comercial foi substituída pela cabine militar aberta, medida que reduziu custos de produção e facilitou o transporte por via naval para os teatros de operações europeus. O 969-A serviu em todos os principais teatros da Segunda Guerra Mundial e foi distribuído a países aliados por meio do Lend-Lease Act, o programa americano de fornecimento de material bélico sem exigência de pagamento imediato, instrumento central da estratégia de guerra americana.
O CARRO
O exemplar em questão integra o lote de 38 unidades do Model 969-A recebidas pelo Exército Brasileiro no último bimestre de 1943, pelo porto do Rio de Janeiro. A cessão ocorreu no âmbito do Lend-Lease Act, em um contexto de estreita cooperação estratégica entre Brasil e Estados Unidos: os americanos necessitavam da posição geográfica brasileira no Nordeste como elo logístico entre as Américas e a África, e do acesso ao látex brasileiro como insumo essencial para a indústria de guerra. As viaturas foram oficialmente classificadas pelo Exército Brasileiro como VE Socorro Leve de Rodas 4 Toneladas 6×6, sob a designação EB-22, e inicialmente concentradas nas principais unidades mecanizadas sediadas na capital federal para treinamento operacional.
O veículo preserva sua configuração estrutural original: carroceria de recuperação Holmes W-45 de duplo boom completa, com dois braços rotativos, cabos, roldanas e pernas estabilizadoras; guincho frontal Gar Wood em sua posição original no para-choque; e eixos Timken de origem. Motor original Hercules RXC a gasolina substituído por um Mercedes-Benz OM 352 diesel seis cilindros em linha, unidade amplamente adotada pelo Exército Brasileiro no programa de remotorização de viaturas da época. O veículo encontra-se em pleno funcionamento.
Com apenas 38 unidades incorporadas ao Exército Brasileiro há mais de oito décadas, os sobreviventes conhecidos hoje são raríssimos, tornando este exemplar uma das poucas unidades deste modelo ainda existentes no país.